BLOG QUE TRATA DE PSICANÁLISE

Um blog que diz de Freud, Lacan, Psicanálise, subjetividade, condição humana e outros assuntos afins, quase sempre muito interessantes...
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domingo, 18 de agosto de 2013

DITO SOBRE LACAN: UM ESCANDALOSO? APENAS?


Lacan é apresentado na literatura ou na imprensa como um indivíduo escandaloso, imoral: digo que é absolutamente verdadeiro. Ele é imoral porque a nossa moralidade, como todos sabem, é suja, e não só suja. Nossa moralidade nunca fez outra coisa senão cultivar a perversão. Não é a psicanálise quem diz isso, isso começa com São Paulo, é uma banalidade. Hoje, é preciso ser um pouco reservado, um pouco prudente, quando se diz de alguém: aquele ali não tem moral. Só os perversos estão ligados à moralidade, querem estabelecer ordem, em qualquer meio que seja, inclusive no meio psicanalítico. Lacan era escandaloso porque questionava, por sua conduta e por seu estilo, referências que nos são muito caras.

In: MELMAN, C.  Entrevista com Charles Melman: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.

 

 

domingo, 4 de agosto de 2013

DITO SOBRE LACAN... POR QUÊ PARTICIPAR DE UMA INSTITUIÇÃO PSICANALÍTICA?


J.C. – Você tem toda razão. Isso me faz pensar que às vezes vimos que a supervisão podia ser percebida como meio de vigiar os jovens analistas. Faz 15 anos que não pertenço a nenhuma associação e, portanto, não acompanho ninguém em seu percurso: como é possível que todas as semanas eu tenha de 30 a 40 sessões de supervisão? Será que isso não significa que um certo número de pessoas está interessado não em reconhecimento pessoal, mas em outra coisa?

 In: CLAVREUL, J.  Entrevista com Jean Clavreul: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

DITO SOBRE LACAN: MANEJANDO OS DISFARCES DO CIUME NA SESSÃO...


“Um dia fui obrigado a constatar (foi bem no começo de meu tratamento) que me era muito penoso pagar o que ele pedia. O que ele cobrava não era nem abusivo nem excessivo, mas, considerando meus recursos, era uma enormidade. Por isso, em geral, não ficava chateado quando ele saía de férias, pois ele só retornava no dia 15 de setembro! Eu começava, então, no dia 1º. de setembro, a trabalhar para ter como lhe parar. Ora, num ano, ele voltou no dia 1º. de setembro, embora tivesse me dito que retornaria no dia 15, e fiquei sabendo por vários companheiros de jogo, com quem dividia a mesma sala de espera, que ele tinha voltado no dia 1º. e tinha ligado para alguns pacientes seus, mas... não para mim! Não posso nem falar do ciúme que se apossou de mim – sem motivo, evidentemente; eu então segurei as pontas até encontrar uma de minhas colegas na sala de espera, logo antes da minha sessão, que me expressou seu júbilo, pois Lacan tinha lhe telefonado já no dia 1º. de setembro! Diante disso não dava para escapar! Mal deitei, disse-lhe: ‘Veja o que acabei de saber e, digo-lhe com todas as letras, estou extremamente enciumado!” Ao que ele respondeu: “O senhor está enciumado? Bem, nesse caso, o senhor me pagará todas as sessões que deveria ter feito se eu tivesse lhe telefonado no dia 1º.’”

 

In: WINTER, J. P. “Tiradas” de Lacan? In: DIDIER-WEILL, A.; SAFOUAN, M. (orgs.) Trabalhando com Lacan: na análise, na supervisão, nos seminários. Rio de Janeiro, Zahar, 2009. p. 134-143.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

DITO SOBRE LACAN: PENSE, ANALISTA... PENSE!


"Assim, ao convidar os analistas a ousarem autorizar-se a pensar, Lacan não esquecia a inquietude expressa por Freud quando via analistas que, ao se tornarem “obedientes a prescrições tabus”, eram forçados a esquecer o espírito criador com que, no entanto, tinham tido que conviver na experiência de analisando."
 
In: DIDIER – WEILL, A.  Introdução. In: DIDIER-WEILL, A.; WEISS E.; GRAVAS, F. (orgs.). Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007.

terça-feira, 16 de julho de 2013

DITO SOBRE LACAN: LACAN E A TRANSFERÊNCIA ERÓTICA ("ISSO NÃO É PSICANÁLISE!")


“Uma vez fiquei surpreso com uma intervenção pesada e inapelável de Lacan. Tinha em análise uma jovem que, no decorrer do trabalho, fez uma transferência erótica comigo; minha presença física dominava a cena: por exemplo, ela respirava a fumaça de meu charuto com avidez, dizendo quanto ela gostaria de ser essa fumaça que eu respirava e entrar dentro de mim. Lacan cortou a sessão e me disse: “Isso não é psicanálise”. Não esperava uma intervenção dessas, porque achava que era o efeito de uma transferência passional, mas superável. Nos tempos que se seguiram, tentei corrigir a situação e interpretar essa transferência erótica, atenuá-la e corrigir a situação, mas não adiantou; a paciente dava o tom erótico a cada um de meus gestos. Enquanto eu contava para Lacan o que acontecia na relação transferencial, Lacan se levantou e me disse: “É preciso acabar com essa analise, até logo, meu caro”. Sempre esperei conseguir fazer a paciente voltar a uma relação transferencial normal, ou seja, deserotizada. Mas a intervenção de Lacan era definitiva e inapelável. Foi só mais tarde que entendi a oportunidade daquela decisão.”

 

In: HOUBBALLAH, A.  Supervisão com Lacan. In: DIDIER-WEILL, A.; SAFOUAN, M. (orgs.) Trabalhando com Lacan: na análise, na supervisão, nos seminários. Rio de Janeiro, Zahar, 2009. p. 44-50.

 

 

terça-feira, 2 de julho de 2013

DITO SOBRE LACAN...LACAN E SEU MEDO?


“Fora isso, eu não gostaria de fazer de Jacques Lacan um retrato idealizado. Seus defeitos eram manifestos. Ele adorava levar as pessoas para ali onde se deposita o eu [moi], a armadura social, o mais próximo do natural, e depois, de um golpe, quando confiavam nele, colocar-lhes uma casca de banana sob os pés, desconcertá-las. Não penso que fizesse isso “de propósito”. Não, era antes a angústia dele: os laços próximos demais davam-lhe medo e se, depois, eram rompidos, ele não suportava mais. Na verdade, para tornar possível uma relação durável com ele, era preciso ficar vigilante e representar, de maneira discreta, mas sempre, a comédia.”
In: MONTRELAY, M.  Entrevista com Michèle Montrelay: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.
 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

DITO SOBRE LACAN... UM SUPERVISOR QUE FORMAVA ANALISTAS


“Basta ter feito uma supervisão prolongada com Lacan para ter uma idéia de sua concepção da formação ou da transmissão psicanalítica em geral. Ao contrário de seus outros colegas (e fiz supervisões com muitos deles), Lacan não procurava ensinar como conduzir uma analise. Deixava você agir o melhor que podia, o que significa que ele deixava a seu cargo o cuidado de se informar se você estava suficientemente preparado, ou se o acúmulo da contratransferência, das intervenções extra-analiticas – tais como as supostamente destinadas a atenuar a culpa, sem falar do mal-estar interno e no fato de falar mais de si próprio que do seu paciente etc. – levava você a concluir que era o caso de retomar sua análise. Numa palavra, para Lacan, “formar um analista” era, acima de tudo, dar todas as oportunidades para que algo da ordem do analista se realizasse. Ou, para dizer de outra forma, para que algo se atenuasse das certezas que o eu tira de sua fantasia fundamental.”
In: SAFOUAN, M.  Entrevista com Moustapha Safouan: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.
 

terça-feira, 25 de junho de 2013

DITO SOBRE LACAN... UM TRABALHADOR DECIDIDO, NÃO SUBMETIDO!


"Por trás da porta, na verdade havia apenas um pequeno recinto que servia de secretaria a Glória. Foi nesse espaço confinado e sombrio que a fiel pessoa passou tantos anos da vida a datilografar seus textos, a atender e a filtrar as chamadas, a fumar também sem parar. Ao lado dessa passagem de dois ou três metros, ficava o quarto de dormir de Lacan, quase que inteiramente ocupado por uma cama grande, uma verdadeira cela de monge.
'Ele às vezes trabalhava aí até as três horas da manhã. Mais de uma vez, encontrei-o adormecido no meio das folhas de papel sobre as quais tinha trabalhado...'."

In HADDAD, G.  O dia em que Lacan me adotou: minha análise com Lacan. Tradução de Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003. 303 p.


 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

DITO SOBRE LACAN... UM GRANDE HOMEM E O PSICANALISTA


"O analista, mesmo que não seja famoso, é, por obra e graça da transferência, um grande homem para seu analisando. Deve, portanto, zelar para se manter no lugar mesmo do semblante, como objeto a, destinado a cair, e é por sua capacidade fazê-lo que, in fine, seu estilo será apreciado. Porém não é a mesma coisa ser um grande homem para todos e sê-lo apenas para seu paciente. O que ocorre se, à medida que este último o “dessupõe” de seu saber, o analista, por seu lado, inventa saber em “jato contínuo”? Se Lacan foi um suposto saber para seus pacientes, também foi, para esses mesmos pacientes, aquele que inventava, que descobria, em suma, aquele que sabia. Lacan não foi ele mesmo vitima do que eu chamaria sua alienação de grande homem, que vem, grileira importuna, desalojá-lo em parte de seu lugar de objeto a, lugar do semblante indispensável para sustentar o discurso analítico e destinado a cair no final do percurso? Não digo, claro, que Lacan não manejasse o semblante com a sua sabida genialidade, mas que esse grande homem, esse mestre nele, parasitou – mais do que ele previu, e sobretudo, se deu conta – seu lugar de analista."
 
In:  SIMONNEY, D.  Lacan, grande homem. In: DIDIER-WEILL, A.; SAFOUAN, M. (orgs.) Trabalhando com Lacan: na análise, na supervisão, nos seminários. Rio de Janeiro, Zahar, 2009. p. 99-111.

sábado, 1 de junho de 2013

DITO SOBRE LACAN... DEITAR NO DIVÃ É O MESMO QUE HUMILHAR-SE?


"E vou lhes dar um exemplo que me vem à memória. Uma paciente, vinda para curar um complexo de inferioridade, indignava-se porque eu a fazia deitar no divã – posição que a punha em inferioridade, dizia ela. Eu ia lhe dizer que era um protesto feminino, depois pensei que essa interpretação era inútil e fui falar com Lacan sobre meu embaraço. Ele logo me disse: “Mas por que você não lhe disse que ela estava justamente ali para falar dessa posição?” Foi uma surpresa para mim: eu me perguntava por que eu não o havia feito. Encontrei a resposta mais tarde: eu estava imbuído demais de minha posição – posição de superioridade -, por isso eu não pudera dizer isso a ela. Eis um exemplo que nos surpreende, nos toca e nos deixa diferentes daquilo que éramos antes de falar com Lacan."
 
In: SAFOUAN, M.  Entrevista com Moustapha Safouan: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.
 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

DITO SOBRE LACAN... RITMO DE TRABALHO E HORÁRIO DO CONSULTÓRIO


"Quando pela primeira vez me dirigi ao n. 5 da Rua de Lille, no outono de 1969, Lacan, com quase setenta anos, apesar dos cabelos já inteiramente embranquecidos, nada tinha de um ancião. Eu ficava impressionado com sua energia, a voz segura, o andar. Ele atendia os primeiros pacientes a uma hora bem matinal – tive consultas por volta das oito horas da manhã e não era o primeiro a esperar – e fechava o consultório após as vinte horas. O momento do almoço era antes breve, já que a partir das treze horas e trinta costumávamos ser muitos a nos amontoar em sua sala de espera. Quanto às férias, à exceção do mês de agosto, de uma semana no Natal e na Páscoa, de alguns dias em fevereiro, ele sempre estava ali, no posto, em seu querido n.5 da Rua de Lille. Ao contrário de muitos analistas, o ofício nunca parecia cansá-lo e com certeza o uso (e o abuso) das sessões curtas o ajudava a agüentar. Um tal modo de vida e de funcionamento atesta que, se ele gostava de dinheiro, este evidentemente não era sua motivação principal."
 
In: HADDAD, G.  O dia em que Lacan me adotou: minha análise com Lacan. Tradução de Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003. 303 p.

 



DITO SOBRE LACAN... TRAIÇÃO?


"No fim da última de todas, que marcava realmente a ruptura, eu lhe disse: 'É certo que guardarei desses dez anos juntos do senhor a impressão de que desempenhou um papel decisivo na minha existência e no meu pensamento, e na psicanálise, é claro, e isso, de qualquer modo, vou reconhecer sempre'. E ele me disse: 'Mas, se você reconhece, então por que faz isso tudo?'. Respondi-lhe: 'Acho que já nos explicamos o bastante sobre isso'. Essas poucas palavras se concluíram pelo fato de que, quando eu quis cumprimentá-lo antes de ir embora estendendo-lhe a mão, ele pôs os braços atrás das costas. E assim deixei a rua de Lille."
 
In: WILDLOCHER, D.  Entrevista com Daniel Wildlocher: testemunho. [2001]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

DITO SOBRE LACAN... DEMANDA PARA ANALISAR MANNONI


"Lacan estava muito interessado por Dolto, porque ele sempre estava à espreita de algo da ordem de uma prática que tivesse escapado à sua teorização. Foi ele quem me pediu, a partir de diferentes comunicações que eu havia feito sobre a criança retardada e sua mãe, para fazer análise com ele. O que o interessava era meu trabalho clinico. Logo, foi por desejo de Lacan que o encontro ocorreu."
 
In: MANNONI, M.  Entrevista com Maud Mannoni: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.

DITO SOBRE LACAN... OS CONJUGES DO(A)S PSICANALISTAS


"Não, não penso. Um analista existe pelo menos em três níveis: primeiro, no exercício de sua função na poltrona, isto é, como praticante; em seguida, num exercício institucional, enquanto responsável pela transmissão dos trabalhos e pela formação dos analistas; enfim, numa obra pessoal, ou antes, numa elaboração, pois as verdadeiras obras de psicanálise ainda podem ser contadas nos dedos das duas mãos. O analista é reconhecido simultaneamente nestes três registros: sua produção intelectual, seu investimento institucional e sua pratica de analista. Não é muito possível isolar o primeiro registro, como se faria para um escritor, ou até para um filosofo ou um pesquisador que se ilustrou nas ciências humanas. É por essa razão que o empreendimento biográfico sobre Lacan é de fato extremamente delicado, e talvez até contestável em seu princípio. A hipótese de que a vida de uma pessoa se comunica com sua obra é certamente interessante; no entanto, no caso de um analista, é com certeza o inverso que acontece, vale dizer que é o engajamento dele numa prática, numa instituição e numa obra que determina sua vida! Perguntem aos cônjuges dos analistas, ele lhes explicarão que a vida dos analistas é uma vida totalmente determinada pelo investimento que eles fazem nessa prática, um pouco particular, é preciso bem dizer, e que não se assemelha a nenhuma outra."
In: DUMÉZIL, C.  Entrevista com Claude Dumézil: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.
 

terça-feira, 28 de maio de 2013

DITO SOBRE LACAN... AS FÉRIAS DO ANALISTA


"Cheguei à Rua de Lille em alguns minutos. A sala de espera estava vazia e fui imediatamente admitido em seu escritório. Estava esperando por uma entrevista particular. Não foi nada disso, e sim, como de costume, convidou-me a deitar no divã. Falei do marasmo que tomava conta de mim. A sessão se prolongou por alguns longos minutos.

“Eu imaginava”, concluiu Lacan antes de acrescentar estas estranhas palavras: “Voltei de férias especialmente por você. Estava inquieto com você... com a sua análise quero dizer”.

O que significava essa declaração? Esse convite para retomar urgentemente as sessões? Em todo caso, tal preocupação por minha pessoa não podia permanecer isolada. Era preciso equilibrar seu efeito por uma contramedida desagradável.

“Como estou aqui especialmente por você, você me pagará o dobro do preço habitual, ou seja, 400 francos. Vejo-o de novo quarta-feira que vem na mesma hora”.

Lacan parecia alegre. Ao sair, notei a presença de outro paciente na sala de espera. Se ele voltara das férias especialmente por mim, eu dividia então esse privilégio com alguns outros.

Na semana seguinte, embora admitido diretamente em seu escritório, notei que a sala de espera começava a se repovoar. Houve uma terceira sessão desse tipo, na última semana de agosto. Dessa vez o consultório reencontrara sua afluência habitual."

In: HADDAD, G.  O dia em que Lacan me adotou: minha análise com Lacan. Tradução de Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003. 303 p.

 

sábado, 25 de maio de 2013

DITO SOBRE LACAN... VARIABILIDADE DO TEMPO DAS SESSÕES


"Comecemos com uma distinção: a variabilidade do tempo das sessões é uma inovação importante instituída por Lacan no manejo do tratamento. Teve o mérito de sacudir a ritualização, ou mesmo a mumificação então em curso da técnica analítica. Mas uma coisa é o emprego do fim de uma sessão para pontuar o discurso do sujeito; outra é o considerável encurtamento do tempo das sessões, a ponto de deixar o paciente apenas o tempo de pronunciar algumas palavras ou frases. Não é certo, é até pouco provável que essa técnica seja mais apta do que outra para cingir o Real em questão do tratamento. É certo que ela faz surgir, com toda a sua vivacidade, uma certa quantidade de objetos a, fulgurância do olhar, manifestação da voz do analista, até a “merda” a que o paciente pode se sentir reduzido quando a se vê expulso depois de alguns segundos. Por outro lado, tem-se uma acentuação da dimensão imaginária do significante: o paciente irá então se deter numa certa palavra proferida com a qual seu analista o deixou, ou até em alguma palavra proferida por ele, para fazer dela uma chave de sua história, a encarnação significante de sua verdade. Quantos analisandos de Lacan conheci que brandiam essa fala ou essa palavra como um troféu? Fetichização do significante, na verdade, mera resistência. Não que esse fenômeno não exista em qualquer analise; só que a técnica das sessões curtas, ao fazer “a transferência pega fogo”, a acentua."

 
In: SIMONNEY, D.  Lacan, grande homem. In: DIDIER-WEILL, A.; SAFOUAN, M. (orgs.) Trabalhando com Lacan: na análise, na supervisão, nos seminários. Rio de Janeiro, Zahar, 2009. p. 99-111.

 

terça-feira, 21 de maio de 2013

DITO SOBRE LACAN... SABER COMO DEGRADAR UMA MULHER


"Anos mais tarde, quando minha analise estava em fase final, cheguei para minha sessão diária e Gloria, inconformada, me disse que o Dr., Lacan não poderia receber-me nesse dia. Estava de cama – o que era excepcional – devido a uma forte gripe.

Volto no dia seguinte e digo a ele:

- Vim ontem, mas o senhor não pode me receber. Estava de cama (au lit).

- Como não?! É claro que naquela hora eu podia recebê-la!

Não acrescentarei nada sobre a dose de dubiedade dessa resposta e dos efeitos de vacilação que provocou em mim. Deparava-me com uma hiância (héance) igual à que se abrira no inicio de minha análise, mas com uma diferença: agora eu podia perceber que meu analista, aqui homem na cama, manifestava-se também como a-camado, o que, de fato, não o impedia de me receber.

Mas isso me mostrava ainda que, como mulher, eu podia suportar uma certa forma de degradação. Evidentemente, não vou desenvolver esse tema aqui. Digamos que aquilo me levou à revelação – revelação no sentido de uma descoberta brutal – de que a face oculta de minha demanda de neurótica era o meu fantasma. Em outros termos, o que constituíra minha demanda de analise era a própria fossa do meu fantasma. E acrescentando apenas que ter visto isso – a saber, o fato de Jacques Lacan me haver dirigido até esse ponto – foi também a alavanca, o impulso essencial que me confirmou na decisão de me tornar analista."
In: MAJOUB, L.  O encontro do Outro na série de analistas. In:  GIROUD, F. et al.  (orgs.) Lacan, você conhece? São Paulo: Cultura, 1993. p. 30-35

 

DITO SOBRE LACAN... AO FINAL DA ANÁLISE TEMOS UM ANALISTA


"Na véspera, para ajudar uma amiga a sair de uma situação de angústia traduzida num sonho, eu havia sentido uma vontade irresistível de revelar-lhe seu sentido.

-Está perfeitamente qualificado para tanto – disse-me vivamente Lacan.

Eu não sabia muito bem do que ele estava falando.

Algumas semanas depois reiterou:

-Nunca pensou em se tornar analista?

Olhei-o abismado. Eu, analista?

-Está falando sério?"
 
In: REY, P.  Uma temporada com Lacan. Tradução de Sieni Maria Campos. Rio de Janeiro: Rocco, 1990. P. 173
 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

DITO SOBRE LACAN... PATRÃO DE GLÓRIA...


"Lacan costumava maquilar seus atos dando-lhes um ar de farsa, fingindo sobretudo interesse pelo dinheiro. Essa maquilagem não resiste à prova. Que necessidade tinha ele, na sua idade, depois de ter juntado uma bela fortuna, daqueles poucos honorários colhidos no verão de agosto. Na verdade, se Lacan gostava muito de dinheiro, não havia nele nenhuma rapinagem, e ele podia ser de uma generosidade espantosa. Sua secretária Glória me contará, depois de sua morte, a seguinte história. Um dia ela lhe pediu autorização para ausentar-se de tarde. Ele perguntou o motivo. Buscar um apartamento, disse ela, pois o proprietário do seu apartamento lhe pedira para deixá-lo. Horas mais tarde, Lacan informou-a de que Sylvia, sua esposa, havia encontrado um apartamento para ela.

'Mas eu nunca vou poder pagar o aluguel desse bairro!

- Quem está falando de aluguel? Se ele lhe convier, dou-lhe de presente'”.

 
In: HADDAD, G.  O dia em que Lacan me adotou: minha análise com Lacan. Tradução de Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003. 303 p.

 

terça-feira, 14 de maio de 2013

DITO SOBRE LACAN... PAGAMENTO DE FALTAS NAS SESSÕES


“Começo de março de 1980.

- Quanto lhe devo? – disse-lhe eu. – Porque, afinal, o senhor me deixou na mão durante um mês.

Resposta:

- O senhor mesmo pode calcular.

Estimei que, no fundo, a ausência era responsabilidade sobretudo minha, gastava eu ter telefonado mais cedo. Calculei: um mês = tantas sessões + tantas supervisões = 5 mil francos.

- Não tenho essa quantia comigo, posso lhe deixar um cheque caução, amanhã trago o dinheiro?

- Isso mesmo.

Preenchi o cheque e lhe perguntei:

- Ponho em nome de quem?

Berros de Lacan:

- Glória, Glória! Ela irrompe imediatamente.

- Ensine Patrick a fazer um cheque.

Ele, batendo os pés sem sair do lugar, eu, voltando-me para ela:

- Em nome de quem?

Sem hesitar, ela disse:

- Em nome do Outro, com o O maiúsculo – e arrancou o cheque de mim nas barbas de Lacan.”

 

In.: VALAS, P.  Passes: o sabre e o pincel. In: DIDIER-WEILL, A.; SAFOUAN, M. (orgs.) Trabalhando com Lacan: na análise, na supervisão, nos seminários. Rio de Janeiro, Zahar, 2009. p. 122-133.