BLOG QUE TRATA DE PSICANÁLISE

Um blog que diz de Freud, Lacan, Psicanálise, subjetividade, condição humana e outros assuntos afins, quase sempre muito interessantes...
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domingo, 18 de agosto de 2013

DITO SOBRE LACAN: UM ESCANDALOSO? APENAS?


Lacan é apresentado na literatura ou na imprensa como um indivíduo escandaloso, imoral: digo que é absolutamente verdadeiro. Ele é imoral porque a nossa moralidade, como todos sabem, é suja, e não só suja. Nossa moralidade nunca fez outra coisa senão cultivar a perversão. Não é a psicanálise quem diz isso, isso começa com São Paulo, é uma banalidade. Hoje, é preciso ser um pouco reservado, um pouco prudente, quando se diz de alguém: aquele ali não tem moral. Só os perversos estão ligados à moralidade, querem estabelecer ordem, em qualquer meio que seja, inclusive no meio psicanalítico. Lacan era escandaloso porque questionava, por sua conduta e por seu estilo, referências que nos são muito caras.

In: MELMAN, C.  Entrevista com Charles Melman: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.

 

 

domingo, 4 de agosto de 2013

DITO SOBRE LACAN... POR QUÊ PARTICIPAR DE UMA INSTITUIÇÃO PSICANALÍTICA?


J.C. – Você tem toda razão. Isso me faz pensar que às vezes vimos que a supervisão podia ser percebida como meio de vigiar os jovens analistas. Faz 15 anos que não pertenço a nenhuma associação e, portanto, não acompanho ninguém em seu percurso: como é possível que todas as semanas eu tenha de 30 a 40 sessões de supervisão? Será que isso não significa que um certo número de pessoas está interessado não em reconhecimento pessoal, mas em outra coisa?

 In: CLAVREUL, J.  Entrevista com Jean Clavreul: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

DITO SOBRE LACAN: MANEJANDO OS DISFARCES DO CIUME NA SESSÃO...


“Um dia fui obrigado a constatar (foi bem no começo de meu tratamento) que me era muito penoso pagar o que ele pedia. O que ele cobrava não era nem abusivo nem excessivo, mas, considerando meus recursos, era uma enormidade. Por isso, em geral, não ficava chateado quando ele saía de férias, pois ele só retornava no dia 15 de setembro! Eu começava, então, no dia 1º. de setembro, a trabalhar para ter como lhe parar. Ora, num ano, ele voltou no dia 1º. de setembro, embora tivesse me dito que retornaria no dia 15, e fiquei sabendo por vários companheiros de jogo, com quem dividia a mesma sala de espera, que ele tinha voltado no dia 1º. e tinha ligado para alguns pacientes seus, mas... não para mim! Não posso nem falar do ciúme que se apossou de mim – sem motivo, evidentemente; eu então segurei as pontas até encontrar uma de minhas colegas na sala de espera, logo antes da minha sessão, que me expressou seu júbilo, pois Lacan tinha lhe telefonado já no dia 1º. de setembro! Diante disso não dava para escapar! Mal deitei, disse-lhe: ‘Veja o que acabei de saber e, digo-lhe com todas as letras, estou extremamente enciumado!” Ao que ele respondeu: “O senhor está enciumado? Bem, nesse caso, o senhor me pagará todas as sessões que deveria ter feito se eu tivesse lhe telefonado no dia 1º.’”

 

In: WINTER, J. P. “Tiradas” de Lacan? In: DIDIER-WEILL, A.; SAFOUAN, M. (orgs.) Trabalhando com Lacan: na análise, na supervisão, nos seminários. Rio de Janeiro, Zahar, 2009. p. 134-143.

terça-feira, 16 de julho de 2013

DITO SOBRE LACAN: LACAN E A TRANSFERÊNCIA ERÓTICA ("ISSO NÃO É PSICANÁLISE!")


“Uma vez fiquei surpreso com uma intervenção pesada e inapelável de Lacan. Tinha em análise uma jovem que, no decorrer do trabalho, fez uma transferência erótica comigo; minha presença física dominava a cena: por exemplo, ela respirava a fumaça de meu charuto com avidez, dizendo quanto ela gostaria de ser essa fumaça que eu respirava e entrar dentro de mim. Lacan cortou a sessão e me disse: “Isso não é psicanálise”. Não esperava uma intervenção dessas, porque achava que era o efeito de uma transferência passional, mas superável. Nos tempos que se seguiram, tentei corrigir a situação e interpretar essa transferência erótica, atenuá-la e corrigir a situação, mas não adiantou; a paciente dava o tom erótico a cada um de meus gestos. Enquanto eu contava para Lacan o que acontecia na relação transferencial, Lacan se levantou e me disse: “É preciso acabar com essa analise, até logo, meu caro”. Sempre esperei conseguir fazer a paciente voltar a uma relação transferencial normal, ou seja, deserotizada. Mas a intervenção de Lacan era definitiva e inapelável. Foi só mais tarde que entendi a oportunidade daquela decisão.”

 

In: HOUBBALLAH, A.  Supervisão com Lacan. In: DIDIER-WEILL, A.; SAFOUAN, M. (orgs.) Trabalhando com Lacan: na análise, na supervisão, nos seminários. Rio de Janeiro, Zahar, 2009. p. 44-50.

 

 

terça-feira, 25 de junho de 2013

CARTAS DE FREUD... GOSTARIA DE TE PEGAR POR TRÁS E CAGAR NA SUA CABEÇA...

CARTA DE FREUD ENDEREÇADA A FERENCZI EM 13/03/1910

“No geral, não sou nada mais do que uma máquina de fazer dinheiro que se esgota de tanto trabalhar nas últimas semanas. Um jovem russo rico que eu havia aceitado tratar por causa de uma paixão amorosa compulsiva declarou a mim depois da primeira sessão o seguinte, à guisa de transferência: ‘- Judeu ladrão, gostaria de te pegar por trás e cagar na tua cabeça’. Com seis anos de idade, o primeiro sintoma manifestou-se em xingamentos blasfemos contra Deus: porco, cão, etc. Quando ele via na rua três montes de estrume, sentia-se mal por causa da Santa Trindade, e procurava ansiosamente um quarto, para destruir a evocação.”

sábado, 8 de junho de 2013

CARTAS DE FREUD... EXIGINDO DE FERENCZI QUE ESTE APRENDA A COBRAR DOS PACIENTES

CARTA ENDEREÇADA A FERENCZI EM 12/04/1910

“O que o Sr. Me conta na última carta ocupou minha mente em diferentes direções. (...) O jovem rapaz de Pre*burg também está insatisfeito aqui com Sadger. Ele gosta mais do Sr. pessoalmente e gostaria de voltar para o Sr., se os conhecidos dele em Budapeste não fossem molestá-lo. Ele também tem algo contra Rekawinkel. No fundo, ele não quer nada. Eu mandei dizer a ele umas grosserias através da mãe. Aproveito a ocasião para dizer que está errado em cobrar apenas 10 coroas pela sessão, quando Sadger está cobrando 20. Veja, o Sr., as 10 coroas não retiveram o rapaz com o Sr., nem as 20 o impediram de procurar Sadger. Prometa-me corrigir-se!”

sábado, 1 de junho de 2013

DITO SOBRE LACAN... DEITAR NO DIVÃ É O MESMO QUE HUMILHAR-SE?


"E vou lhes dar um exemplo que me vem à memória. Uma paciente, vinda para curar um complexo de inferioridade, indignava-se porque eu a fazia deitar no divã – posição que a punha em inferioridade, dizia ela. Eu ia lhe dizer que era um protesto feminino, depois pensei que essa interpretação era inútil e fui falar com Lacan sobre meu embaraço. Ele logo me disse: “Mas por que você não lhe disse que ela estava justamente ali para falar dessa posição?” Foi uma surpresa para mim: eu me perguntava por que eu não o havia feito. Encontrei a resposta mais tarde: eu estava imbuído demais de minha posição – posição de superioridade -, por isso eu não pudera dizer isso a ela. Eis um exemplo que nos surpreende, nos toca e nos deixa diferentes daquilo que éramos antes de falar com Lacan."
 
In: SAFOUAN, M.  Entrevista com Moustapha Safouan: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.
 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

DITO SOBRE LACAN... RITMO DE TRABALHO E HORÁRIO DO CONSULTÓRIO


"Quando pela primeira vez me dirigi ao n. 5 da Rua de Lille, no outono de 1969, Lacan, com quase setenta anos, apesar dos cabelos já inteiramente embranquecidos, nada tinha de um ancião. Eu ficava impressionado com sua energia, a voz segura, o andar. Ele atendia os primeiros pacientes a uma hora bem matinal – tive consultas por volta das oito horas da manhã e não era o primeiro a esperar – e fechava o consultório após as vinte horas. O momento do almoço era antes breve, já que a partir das treze horas e trinta costumávamos ser muitos a nos amontoar em sua sala de espera. Quanto às férias, à exceção do mês de agosto, de uma semana no Natal e na Páscoa, de alguns dias em fevereiro, ele sempre estava ali, no posto, em seu querido n.5 da Rua de Lille. Ao contrário de muitos analistas, o ofício nunca parecia cansá-lo e com certeza o uso (e o abuso) das sessões curtas o ajudava a agüentar. Um tal modo de vida e de funcionamento atesta que, se ele gostava de dinheiro, este evidentemente não era sua motivação principal."
 
In: HADDAD, G.  O dia em que Lacan me adotou: minha análise com Lacan. Tradução de Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003. 303 p.

 



quarta-feira, 29 de maio de 2013

DITO SOBRE LACAN... DEMANDA PARA ANALISAR MANNONI


"Lacan estava muito interessado por Dolto, porque ele sempre estava à espreita de algo da ordem de uma prática que tivesse escapado à sua teorização. Foi ele quem me pediu, a partir de diferentes comunicações que eu havia feito sobre a criança retardada e sua mãe, para fazer análise com ele. O que o interessava era meu trabalho clinico. Logo, foi por desejo de Lacan que o encontro ocorreu."
 
In: MANNONI, M.  Entrevista com Maud Mannoni: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.

terça-feira, 28 de maio de 2013

DITO SOBRE LACAN... AS FÉRIAS DO ANALISTA


"Cheguei à Rua de Lille em alguns minutos. A sala de espera estava vazia e fui imediatamente admitido em seu escritório. Estava esperando por uma entrevista particular. Não foi nada disso, e sim, como de costume, convidou-me a deitar no divã. Falei do marasmo que tomava conta de mim. A sessão se prolongou por alguns longos minutos.

“Eu imaginava”, concluiu Lacan antes de acrescentar estas estranhas palavras: “Voltei de férias especialmente por você. Estava inquieto com você... com a sua análise quero dizer”.

O que significava essa declaração? Esse convite para retomar urgentemente as sessões? Em todo caso, tal preocupação por minha pessoa não podia permanecer isolada. Era preciso equilibrar seu efeito por uma contramedida desagradável.

“Como estou aqui especialmente por você, você me pagará o dobro do preço habitual, ou seja, 400 francos. Vejo-o de novo quarta-feira que vem na mesma hora”.

Lacan parecia alegre. Ao sair, notei a presença de outro paciente na sala de espera. Se ele voltara das férias especialmente por mim, eu dividia então esse privilégio com alguns outros.

Na semana seguinte, embora admitido diretamente em seu escritório, notei que a sala de espera começava a se repovoar. Houve uma terceira sessão desse tipo, na última semana de agosto. Dessa vez o consultório reencontrara sua afluência habitual."

In: HADDAD, G.  O dia em que Lacan me adotou: minha análise com Lacan. Tradução de Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003. 303 p.

 

sábado, 25 de maio de 2013

DITO SOBRE LACAN... VARIABILIDADE DO TEMPO DAS SESSÕES


"Comecemos com uma distinção: a variabilidade do tempo das sessões é uma inovação importante instituída por Lacan no manejo do tratamento. Teve o mérito de sacudir a ritualização, ou mesmo a mumificação então em curso da técnica analítica. Mas uma coisa é o emprego do fim de uma sessão para pontuar o discurso do sujeito; outra é o considerável encurtamento do tempo das sessões, a ponto de deixar o paciente apenas o tempo de pronunciar algumas palavras ou frases. Não é certo, é até pouco provável que essa técnica seja mais apta do que outra para cingir o Real em questão do tratamento. É certo que ela faz surgir, com toda a sua vivacidade, uma certa quantidade de objetos a, fulgurância do olhar, manifestação da voz do analista, até a “merda” a que o paciente pode se sentir reduzido quando a se vê expulso depois de alguns segundos. Por outro lado, tem-se uma acentuação da dimensão imaginária do significante: o paciente irá então se deter numa certa palavra proferida com a qual seu analista o deixou, ou até em alguma palavra proferida por ele, para fazer dela uma chave de sua história, a encarnação significante de sua verdade. Quantos analisandos de Lacan conheci que brandiam essa fala ou essa palavra como um troféu? Fetichização do significante, na verdade, mera resistência. Não que esse fenômeno não exista em qualquer analise; só que a técnica das sessões curtas, ao fazer “a transferência pega fogo”, a acentua."

 
In: SIMONNEY, D.  Lacan, grande homem. In: DIDIER-WEILL, A.; SAFOUAN, M. (orgs.) Trabalhando com Lacan: na análise, na supervisão, nos seminários. Rio de Janeiro, Zahar, 2009. p. 99-111.