BLOG QUE TRATA DE PSICANÁLISE

Um blog que diz de Freud, Lacan, Psicanálise, subjetividade, condição humana e outros assuntos afins, quase sempre muito interessantes...
Mostrando postagens com marcador Psicanálise. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Psicanálise. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

EVENTO: CONFERENCIA NA UMESP: AFINAL, O QUE É E COMO TRABALHA UM PSICANALISTA LACANIANO?


CONFERENCIA  METODISTA  30-NOVEMBRO-2013

AFINAL, O QUE É E COMO TRABALHA UM PSICANALISTA LACANIANO?

Leandro Alves Rodrigues dos Santos: psicanalista, psicólogo, Doutor em Psicologia Clínica (USP) e pós doutorando em Psicologia Social (PUC), membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano-Brasil e do Fórum do Campo Lacaniano-SP.

 

Eu sou freudiano, se vocês quiserem sejam lacanianos...

Jacques Lacan, em Caracas, 1980.

 

Há uma ironia presente no título dessa conferência, esse “o que é”, ao invés de “quem é”. Naturalmente isso não se deu de forma gratuita quando da elaboração desse pequeno texto que visa modestamente explicitar ao interessado as possíveis temáticas que serão abordadas e problematizadas neste evento que ocorrerá em breve.

Afinal, o “psicanalista lacaniano” é um termo que, ao menos nos últimos vinte anos, têm chamado muito a atenção das pessoas, quer seja pela originalidade nos manejos com os pacientes, com a concepção ética que atravessa um tratamento, com as sutilezas da escuta e das surpreendentes intervenções, com o rigor envolvido na formação, além de certas subversões nos padrões até então estabelecidos que, não sem razão, contribuem para a inflação de tal “personagem” [1] no imaginário das pessoas, em especial aqueles que se embrenham no “mundo-psi”, se assim podemos dizer.

Como ilustração, podemos afirmar que muitos dos que ele conviveu também nos trazem interessantes narrativas como, por exemplo, Melman (1998), quando dizia de Lacan e seu modo de lidar com o tempo da sessão:

“Com Lacan, as sessões nunca eram, só excepcionalmente, de 45 minutos. Ele às vezes pedia ao analisando para voltar uma ou duas horas mais tarde, às vezes até uma terceira ou uma quarta vez no dia. A duração de uma sessão podia estar ligada a diferentes coisas. Primeiro, ao fato de que você podia não ter nada de significativo a dizer: pode acontecer, nem sempre estamos ligados, o inconsciente às vezes dorme, descansa, está em outro lugar. Assim, Lacan podia parar a sessão porque não havia nada de especial que pudesse ser dito ali. Mas também podia parar a sessão porque o corte dava toda a sua virtude, todo o seu sentido ao que acabava de ser formulado. Havia, nele, um manejo dessa pontuação que às vezes era pertinente, às vezes podia não ser, pois ele não estava seguro de nunca se enganar. Em todo caso, era por razões teóricas muito claras que ele se servia disso.” (p. 114)

Ou ainda Patrick Valas (2009), ao relatar a respeito de sua ausência em certo número de sessões durante o começo de 1980, sem uma justificativa adequada, quando pergunta a Lacan quanto lhe deve:

“Resposta: - O senhor mesmo pode calcular. Estimei que, no fundo, a ausência era responsabilidade sobretudo minha, bastava eu ter telefonado mais cedo. Calculei: um mês = tantas sessões + tantas supervisões = 5 mil francos. - Não tenho essa quantia comigo, posso lhe deixar um cheque caução, amanhã trago em dinheiro? - Isso mesmo. Preenchi o cheque e lhe perguntei: - Ponho em nome de quem? Berros de Lacan: - Glória, Glória! Ela irrompe imediatamente. - Ensine Patrick a fazer um cheque. Ele, batendo os pés sem sair do lugar, eu, voltando-me para ela: - Em nome de quem? Sem hesitar, ela disse: - Em nome do Outro, com o O maiúsculo – e arrancou o cheque de mim nas barbas de Lacan.” (p. 131)

Até mesmo nas supervisões, Lacan mantinha-se fiel aos seus pressupostos, como podemos depreender de um breve testemunho de seu supervisionando, Adnan Houbballah (2009):

“Depois, ele perguntou o objetivo de minha visita e me explicou que começaríamos a supervisão da próxima vez. “No começo”, disse ele, “serei pedagogo. Depois, será outra coisa”. Vinte minutos após o início dessa primeira entrevista, evoquei a questão do dinheiro. Expressei-lhe claramente minha situação: “Só posso pagar 100 francos”. Lacan concorda. Soube depois que Lacan avaliava o preço de uma sessão em função de seus efeitos no tratamento. Por exemplo, na minha volta do Líbano – de onde vim arruinado, em 1975 -, só podia pagar 50 francos por minha supervisão. Ele aceitou, com a condição de voltar à antiga tarifa quando a situação se normalizasse. A supervisão durou 12 anos.” (p. 46)

Esses poucos exemplos já catalisam nossa atenção, desvelando um psicanalista que ousou fazer algo diferente no cenário psicanalítico de sua época, com as questões que o interrogavam e, desde então, influenciou significativamente gerações de analistas. Dessa forma, fica no ar uma questão, agora renovada: o que é como trabalha o psicanalista que se afina a esse modus operandi criado e desenvolvido por Lacan, a partir do que ele mesmo chamou de um “retorno a Freud”? Tentar responder a isso é a expectativa que atravessa esta conferência. Bem vindos os que compartilharem de tal curiosidade!

 

Tópicos que serão abordados:

·         O psicanalista de orientação lacaniana... De onde vêm? Como chegou até isso? Trata-se apenas de uma escolha consciente de linha teórica?

·         Como os lacanianos pensam a formação de um psicanalista? No que difere de outras abordagens teóricas, dentro e fora da Psicanálise?

·         Em termos de crescimento, desde os anos setenta, como anda a cena lacaniana no Brasil? Quais razões explicariam o “sucesso” dessa outra forma de pensar a Psicanálise? “Lacan + brasileiros” redunda em algo novo, peculiar e afinado à nossa forma de fazer laço?

·         O que está por trás das mudanças promovidas por Lacan, alguma delas bastante radicais, no manejo com o paciente, aliás, com o analisando?

·         Por que o dinheiro é tomado de forma simbólica e manejado de maneira tão cuidadosa pelo analista de orientação lacaniana?

·         Por que o tempo é tomado de forma simbólica e manejado de maneira tão cuidadosa pelo analista de orientação lacaniana?

·         Afinal, o que quer dizer a tríade imaginário-simbólico-real, que tão repetidas vezes se fazem presentes nos textos de lacanianos? E como isso afeta a direção de um tratamento analítico?

·         Final de análise é muito diferente de alta, interrupção ou abandono de um tratamento. Como os lacanianos pensam esse aspecto e por que tanto interesse nos temas que giram em torno do final de uma análise?

·         A formação é mais difícil, mais lenta, menos pedagógica? Como se aproximar do universo lacaniano, já que cursos de especialização atendem parcialmente essa expectativa dos interessados?

·         O que é uma Escola de Psicanálise? Qual a diferença em relação a uma associação de psicanalistas, ou mesmo a uma sociedade?

·         O que é um cartel? Como funciona? Há uma razão política por trás de tal proposta?

·         O que é o passe? Como funciona essa ousada ideia de Lacan? Há uma razão política por trás de tal aposta?

·         Lacanianos são comumente criticados por outras linhas,escolas e abordagens teóricas, dentro e fora da Psicanálise, não apenas no consultório, mas também em trabalhos institucionais O que encobre essa animosidade? Há uma confusão de línguas nesses momentos?

·         A análise lacaniana pode ser considerada mais efetiva, mais direta e, portanto, mais visceral? O que dizem os analisandos?

·         O que significa pensar a lógica de uma análise em termos de questões da linguagem, ao invés de algo do campo da saúde, bem estar ou algo assim?

·         O que conceitos como Outro, gozo, Real, saber, e afins dizem da singularidade de um campo teórico clinico como o lacaniano? Ainda somos freudianos?

 

Local: Universidade Metodista de São Paulo – campus Planalto (Rua Dom Jaime de Barros Câmara, 1000, Bairro Planalto – São Bernardo do Campo - SP)

Horário: das 09h30min às 12h00min

Evento público, aberto e gratuito

Inscrições: basta preencher o formulário eletrônico, clicando no link https://eventioz.com.br/e/afinal-o-que-e-e-como-trabalha-um-psicanalista-lac

Vagas limitadas



[1] Elizabeth Roudinesco (2005), em seu trabalho A lista de Lacan. Inventário das coisas desaparecidas, aborda este assunto, entre outros, mostrando que Lacan apreciava investir o dinheiro em coisas que lhe aprouvessem, características de seu modo de ser, muito afeitas ao personagem por ele constituído: “Colecionador, fetichista, apaixonado por livros – e principalmente por edições raras ou originais –, Lacan havia acumulado, ao longo de toda sua vida, objetos de todos os tipos: quadros de mestres, aquarelas,desenhos, esculturas, estatuetas arqueológicas, móveis preciosos, roupas extravagantes confeccionadas de acordo com suas orientações: casacos de pele, ternos em tecido raro, golas duras sem vira ou gola virada, nó de gravata, sapatos feitos sob medida e em couros surpreendentes, e, enfim, moedas de ouro – preferencialmente napoleões – aos quais se acrescentavam barras de ouro, repartidas em cinco contas, em cinco bancos diferentes e em cofres dispersos por Paris”.(p. 140)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

EVENTO: CONFERÊNCIA SOBRE O AMÓDIO: AMOR E ÓDIO NA RELAÇÃO TRANSFERENCIAL COM O ANALISTA


CONFERENCIA  METODISTA  23-NOVEMBRO-2013

SOBRE O AMÓDIO: AMOR E ÓDIO NA RELAÇÃO TRANSFERENCIAL COM O ANALISTA

 

Leandro Alves Rodrigues dos Santos: psicanalista, psicólogo, Doutor em Psicologia Clínica (USP) e pós doutorando em Psicologia Social (PUC), membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano-Brasil e do Fórum do Campo Lacaniano-SP.

 

Um jovem russo rico que eu havia aceitado tratar por causa de uma paixão amorosa compulsiva declarou a mim depois da primeira sessão o seguinte, a guisa de transferência: ‘- Judeu ladrão, gostaria de te pegar por trás e cagar na tua cabeça’. Com seis anos de idade, o primeiro sintoma manifestou-se em xingamentos blasfemos contra Deus: porco, cão, etc. Quando ele via na rua três montes de estrume, sentia-se mal por causa da S[anta] Trindade, e procurava ansiosamente um quarto, para destruir a evocação.

Sigmund Freud, em carta endereçada a Ferenczi, em 13/02/1910.

 

A epígrafe acima é um belo exemplo do ódio que pode surgir na relação analítica, nesse caso especifico com o paciente Serguei Pankjeff, hoje conhecido como o Homem dos Lobos, termo cunhado por seu analista, Sigmund Freud. Dizer do amor que ocorre no tratamento analítico pode parecer mais fácil como, aliás, o próprio Freud (1912) deixa claro em seu já clássico Observações sobre o amor transferencial, quando diz da frequência com que se defrontava com casos nos quais “uma paciente demonstra, mediante indicações inequívocas, ou declara abertamente, que se enamorou, como qualquer outra mulher mortal poderia fazê-lo, do médico que a está analisando. Esta situação tem seus aspectos aflitivos e cômicos, bem como os sérios.”

Ou ainda, com boa dose de honestidade científica, ao relatar seus percalços com certas pacientes histéricas que por ele se diziam apaixonadas, permanecendo ou abandonando o tratamento:

“E certo dia tive a experiência que me indicou, sob a luz mais crua, o que eu há muito tinha suspeitado. Essa experiência ocorreu com uma de minhas pacientes mais dóceis, com a qual o hipnotismo me permitira obter os resultados mais maravilhosos e com quem estava comprometido a minorar os sofrimentos, fazendo remontar seus ataques de dor a suas origens. Certa ocasião, ao despertar, lançou os braços em torno do meu pescoço. A entrada inesperada de um empregado nos livrou de uma discussão penosa, mas a partir daquela ocasião houve um entendimento tácito de que o tratamento hipnótico devia ser interrompido. Fui bastante modesto em não atribuir o fato aos meus próprios atrativos pessoais irresistíveis, e senti que então havia apreendido a natureza do misterioso elemento que se achava em ação por trás do hipnotismo”. Freud (1925[1924], grifo nosso)

 

Não é sem surpresa que Lacan, em seu Seminário XX (Mais ainda) cunha a expressão presente no título dessa conferência, muito precisa e autoexplicativa, quando afirma “que, para vocês, eu gostaria de escrever hoje como a hainamoration, uma enamoração feita de ódio (haine) e de amor, um amódio, é o relevo que a Psicanálise soube introduzir para nele escrever a zona de sua experiência. Era, de sua parte, um testemunho de boa vontade.”

Dessa forma, fica no ar uma questão crucial: como se desenrola no tratamento analítico, durante e entre as sessões, esse tal amódio? Essa conferência tem essa ambição, tentar responder a partir das experiências cotidianas da clínica...

 

Tópicos que serão abordados:

·         O amor e o ódio sempre ocorrem num tratamento analítico? Sempre da mesma forma e sempre perceptível?

·         Quando falamos de amor entre um(a) paciente e um psicanalista, isso inclui a dimensão erótica?

·         Em termos transferenciais, o amor sempre ajuda e o ódio sempre atrapalha?

·         Por qual razão imaginamos mais facilmente a atração entre paciente e analista de sexos/gêneros diferentes? E entre ambos do mesmo sexo/gênero, isso por acaso não ocorre?

·         O ciúme pode ser considerado um desdobramento desse “fenômeno” chamado amódio?

·         No caso das analisandas, a possível inveja do pênis antecede a dificuldade de se entregar a uma experiência analítica, que inclui a incerteza de um amor(transferencial)?

·         No caso dos analisandos, a possível atração homossexual/heterossexual antecede a dificuldade de se entregar a uma experiência analítica, que inclui a incerteza de um amor(transferencial)?

·         Crianças em análise também passam por isso tudo? Da mesma forma? E o amódio da mãe? Ou dos pais?

·         Casais em tratamento, ou mesmo casal de pais, também são atravessados pelo amódio?

·         Encaminhamentos frequentes ou ausência completa de encaminhamentos de analisandos dizem de algo dessa ordem?

·         O amor é sempre infantil? O amódio comprova isso no dia-a-dia da clínica?

·         E do lado do analista? Trata-se simplesmente de questões de sua análise pessoal?

·         O amor está mudando atualmente? Mudarão os analisandos? Os analistas? As análises?

 

Local: Universidade Metodista de São Paulo – campus Planalto (Rua Dom Jaime de Barros Câmara, 1000, Bairro Planalto – São Bernardo do Campo - SP)

Horário: das 09:30 às 12:00

Evento público, aberto e gratuito

Inscrições: basta preencher o formulário eletrônico, clicando no link https://eventioz.com.br/e/inscricao-conferenciasobre-o-amodio-amor-e-odio-na

Vagas limitadas

 

 

domingo, 25 de agosto de 2013

EVENTO: SEMINARIO (PSICANALISAR: AS VICISSITUDES DESSA PROFISSÃO IMPOSSIVEL) NO FCL-SP

AQUI VÃO OS DADOS DO SEMINÁRIO QUE COMEÇAREI EM BREVE:


PSICANALISAR: AS VICISSITUDES DESSA PROFISSÃO IMPOSSIVEL

Coordenação: Leandro Alves Rodrigues dos Santos

Horário: segundas feiras, quinzenalmente, das 14h00 às 15h30.

Início: 02 de setembro de 2013 (reunião inaugural para definições: datas, textos, etc...).

Local: sede do Fórum do Campo Lacaniano - SP


Maiores informações e inscrições: com Raquel ou Luiza no fone 3057-1743.

 

A proposta central desse seminário é abordar algumas das vicissitudes presentes no psicanalisar. Qualquer psicanalista, iniciante ou mais experiente, corroborará essa percepção, até mesmo porque passa cotidianamente por situações que dizem de certa especificidade da “profissão impossível” (como Freud a descreveu, por mais de uma vez), manifestada através das inúmeras dificuldades presentes na clínica e, além disso, fora dela também. Esses elementos foram objetos de estudos em minha tese de doutorado, defendida no IPUSP em 2011, sob a orientação de Christian Dunker, intitulada O trabalho do psicanalista: das dificuldades da prática aos riscos do narcisismo profissional (tese disponível no banco de teses da USP, pelo link http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47133/tde-31082011-152735/pt-br.php).

Nela, elenquei algumas das dificuldades que enfrenta o psicanalista, como é possível depreender a partir de um trecho do resumo que apresenta a referida tese: “Este estudo aborda o trabalho do psicanalista, tomando como vértice de investigação as dificuldades que esses profissionais atravessam na sua prática clínica cotidiana. Nesse contexto, mudanças no perfil dos pacientes, crises de demanda frente ao incremento da concorrência com psicofármacos e psicoterapias diversas, significativas exigências da formação, estabelecimento de laços com outros analistas e vicissitudes na relação com a família podem ser considerados índices do mal-estar do psicanalista frente ao ato de psicanalisar nos dias atuais”.

A partir dessa empreitada, decidi avançar e agora inaugurar esse seminário para, pouco a pouco, esmiuçar os diversos tópicos que pesquisei por anos e que, ao contrastar com minha própria prática clínica, noto que continuam se mostrando como aspectos que me parecem ser, quase sempre, pouco abordados, pouco debatidos e, talvez, subdimensionados. Nesse sentido, privilegiá-los de maneira mais detida pode ser uma saída, uma possibilidade interessante para fomentar novas discussões acerca dessa ousada decisão que é psicanalisar, com todos os riscos que aí residem.

São muitas as dificuldades que podem ser alvo de uma apreciação mais pormenorizada, mas de inicio penso em direcionar o foco para a escuta, para o que Freud chama de atenção flutuante (ou uniformemente suspensa) característica que define de maneira bastante singular o posicionamento do psicanalista frente ao discurso que o interpela. Mas, como isso se dá na prática? Já desde os primeiros contatos (por vezes no telefone) e, principalmente, nas múltiplas demandas que os que nos procuram portam através de suas queixas? Todo psicanalista escuta e todo paciente associa, sem turbulências?

Responder a essas questões nos leva a uma dedução, de que parece claro que um psicanalista trabalha com a palavra e, como comprovação, basta nos atermos ao que Freud dizia a esse respeito, em conferência[1] proferida em 1915:

As palavras, originalmente, eram mágicas e até os dias atuais conservaram muito do seu antigo poder mágico. Por meio de palavras uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero, por palavras o professore veicula seus conhecimentos aos alunos, por palavras o orador conquista seus ouvintes para si e influencia o julgamento e as decisões deles. Palavras suscitam afeto e são, de modo geral, o meio de mútua influência entre os homens. Assim, não depreciaremos o uso das palavras na psicoterapia, e nos agradará ouvir as palavras trocadas entre o analista e seu paciente.

Ou ainda Lacan, em dois momentos, numa entrevista[2] à revista italiana Panorama:

Sem as palavras, nada existiria. O que seria o prazer sem o intermediário da palavra? Minha opinião é que Freud, enunciando em suas primeiras obras – ‘A interpretação dos sonhos’, ‘Além do princípio do prazer’, ‘Totem e tabu’ – as leis do inconsciente, formulou, como precursor, as teorias com as quais alguns anos mais tarde Ferdinand de Saussure teria aberto a via à linguística moderna.

E também em outra entrevista[3], dessa vez concedida a Madeleine Chapsal, na qual reitera a importância desses textos como fontes de inspiração: “– Leia “A interpretação dos sonhos”, leia a “Psicopatologia da vida cotidiana”, leia “Os chistes e sua relação com o Inconsciente”, é suficiente abrir estas obras, não importa em que pagina, para encontrar isso que lhe falo.”

Afinal, por qual razão Lacan marca com tanta precisão que encontrou nesses textos de Freud preciosos indicativos do trato à palavra, das sutilezas presentes no manejo na suposta troca de palavras com o paciente (repito, por vezes já no telefone), sugerindo aos psicanalistas que neles se debruçassem para poderem alcançar os desdobramentos por ele efetuados, na intersecção com a Linguística, com a noção de significante, a fala vazia e a fala plena, enfim, como se dá isso tudo no dia-a-dia da clínica, durante os atendimentos? Nossa prática é de fato consoante com o que estudamos? Esse seminário será um lugar no qual essas e outras questões poderão ser esmiuçadas. Fica o convite, seguido de um belo exemplo de como Freud manejava essa questão da palavra...

LEANDRO ALVES RODRIGUES DOS SANTOS

 

Fragmento extraído de um texto de Nelson da Silva Júnior, publicado na revista Mente Cérebro (edição especial: Psicoterapias, volume 1), editado pela Duetto, em 2010, na cidade de São Paulo.

 

“Há um ditado italiano que diz ‘si no é vero, é bene trovatto.’ Ou seja, há algumas histórias tão boas que não importa se são ou não verdadeiras, pois, de certo modo, ilustram a verdade mais fielmente do que os fatos podem fazê-lo. Conto então uma história sobre Sigmund Freud (1856-1939) que me foi relatada por um amigo há muitos anos. Este, por seu turno, a ouviu de uma velha senhora que teria conhecido Freud quando tinha 15 anos, quando acompanhava sua tia a uma consulta com o famoso médico vienense. Entre as palavras dele e este texto haveria então não mais que três intermediários, o que não é muito se pensarmos que tal evento ocorreu, pelos meus cálculos, entre 1920 e 1925.

Meu amigo assinava o contrato de aluguel de um apartamento em São Paulo quando conheceu a senhora em questão. Ao saber que ele era analista em formação, ela se apresentou em dizer que era psicóloga, tinha estudado com o psicólogo e epistemólogo suíço Jean Piaget ‘(1896-1980) e havia conhecido Freud. Segundo contou, sua tia era uma mulher muito bonita, de uns 30 anos, que já tinha procurado vários médicos devido a dores cuja causa nenhum deles havia encontrado. Com relutância, marcou uma consulta com o Dr. Freud, controverso especialista em doenças nervosas de Viena. Ao encontrar o psicanalista, declarou com impertinência sua falta de confiança na psicanálise. ‘Se é verdade que o senhor trata só com as palavras, isso será inútil. Não acredito que meras palavras tenham poder sobre minhas dores do corpo. ’

O experiente médico teria se mantido imperturbável. Perguntou sobre o que a trazia ali, quando suas dores tinham começado, onde eram, se e quando mudavam de intensidade, quais tratamentos tinha tentado, se tinha outros incômodos e também sobre sua vida em geral. Quando pareceu satisfeito, iniciou um discurso um pouco surpreendente para ambas:

‘Vejo que a senhora, apesar dos males que a afligem, é de rara beleza. Isso não deve ter lhe escapado, uma vez que, imagino eu, não devem ser poucas as expressões de admiração e as conseqüentes investidas dos cavalheiros de nossa cidade. Sua pele é de uma textura extremamente delicada e saudável.’ Nisso se levantou, pegou um espelho que mantinha pendurado no ferrolho da janela e o aproximou da dama, oferecendo a imagem da qual falava à jovem senhora, visivelmente lisonjeada. ‘Observe! Trata-se mesmo de uma beleza pouco comum, algo oriental, com grandes olhos negros e ligeiramente oblíquos... On dirait la beauté dúne déesse égyptienne’, disse em elogio com uma espécie de apoteose ao momento sublime que aquele rosto capturava. ‘Observe, minha senhora, e não se esqueça jamais desse momento. Ele é a própria imagem do ápice da beleza feminina encarnada em um rosto simplesmente perfeito!’ Nisso, com efeito, a expressão da jovem havia se transformado. Seus olhos brilhavam, seu rubor saudável indicava uma felicidade vivaz e satisfeita. Ela estava simplesmente exuberante e deliciada com o que via.

‘Contudo’, continuou com outro tom de voz, ‘se examinarmos com cuidado, será possível notar que os primeiros sinais da velhice já se anunciam sutilmente’. ‘Veja bem’, disse, aproximando o espelho do olhar hesitante da jovem. ‘Um pequeno mas indisfarçável reticulado se irradia dos cantos das pálpebras e dos lábios...’ A angústia da moça ao confirmar aquelas marcas as sulcava um pouco mais. Dr. Freud tinha experiência em detectar os sinais mínimos de perturbação interior. Bastou que indicasse as poucas irregularidades da pele para que as lágrimas brotassem dos olhos baços da infeliz. ‘Talvez o que vê agora seja meramente fruto de sua aflição diante da verdade: que nosso melhor tempo é como um só dia de sol antes de um longo inverno da decadência contínua’. Nisso, a jovem senhora já contemplava outra imagem. Seu nariz e olhos, inchados com o choro, e a fronte, avermelhada com a tensão, de fato, pareciam confirmar a profecia do médico. Foi então que o tom de voz de novo mudou e assumiu um ar benevolente e carinhoso. ‘A senhora se recorda do rosto divino que viu a pouco nesse mesmo espelho?’ Ela acenou afirmativamente com a cabeça, incapaz de falar. ‘Pois bem, minha senhora, ela se transformou na imagem que vê agora apenas com o poder das palavras!’”

 

 



[1] FREUD, S. (1916[1915]).  Conferências introdutórias sobre Psicanálise – Parte I. Parapraxias (I/Introdução). Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 15, p. 27-38).
[3] Entrevista disponível pelo link  http://www.clinicamente.com.ar/articulos/ev-lacan.htm

domingo, 18 de agosto de 2013

DITO SOBRE LACAN: UM ESCANDALOSO? APENAS?


Lacan é apresentado na literatura ou na imprensa como um indivíduo escandaloso, imoral: digo que é absolutamente verdadeiro. Ele é imoral porque a nossa moralidade, como todos sabem, é suja, e não só suja. Nossa moralidade nunca fez outra coisa senão cultivar a perversão. Não é a psicanálise quem diz isso, isso começa com São Paulo, é uma banalidade. Hoje, é preciso ser um pouco reservado, um pouco prudente, quando se diz de alguém: aquele ali não tem moral. Só os perversos estão ligados à moralidade, querem estabelecer ordem, em qualquer meio que seja, inclusive no meio psicanalítico. Lacan era escandaloso porque questionava, por sua conduta e por seu estilo, referências que nos são muito caras.

In: MELMAN, C.  Entrevista com Charles Melman: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.

 

 

sábado, 10 de agosto de 2013

FREUD IMPLICA: TERMINO DE ANÁLISE É O MESMO QUE NORMALIDADE ABSOLUTA?


O outro significado do ‘término’ de uma análise é muito mais ambicioso. Nesse sentido, o que estamos indagando é se o analista exerceu uma influência de tão grande conseqüência sobre o paciente, que não se pode esperar que nenhuma mudança ulterior se realize neste, caso sua análise venha a ser continuada. É como se fosse possível, por meio da análise, chegar a um nível de normalidade psíquica absoluta – um nível, ademais, em relação ao qual pudéssemos confiar em que seria capaz de permanecer estável, tal como se, talvez, tivéssemos alcançado êxito em solucionar todas as repressões do paciente e em preencher todas as lacunas em sua lembrança. Podemos primeiro consultar nossa experiência para indagar se tais coisas de fato acontecem, e depois nos voltarmos para nossa teoria, a fim de descobrir se há qualquer possibilidade de elas acontecerem.

In.: ANÁLISE TERMINÁVEL E INTERMINÁVEL (1937)

domingo, 4 de agosto de 2013

DITO SOBRE LACAN... POR QUÊ PARTICIPAR DE UMA INSTITUIÇÃO PSICANALÍTICA?


J.C. – Você tem toda razão. Isso me faz pensar que às vezes vimos que a supervisão podia ser percebida como meio de vigiar os jovens analistas. Faz 15 anos que não pertenço a nenhuma associação e, portanto, não acompanho ninguém em seu percurso: como é possível que todas as semanas eu tenha de 30 a 40 sessões de supervisão? Será que isso não significa que um certo número de pessoas está interessado não em reconhecimento pessoal, mas em outra coisa?

 In: CLAVREUL, J.  Entrevista com Jean Clavreul: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

FREUD E A CIÊNCIA.... ESCRITORES, CIÊNCIA E CASTRAÇÃO

Os escritores estão submetidos à necessidade de criar prazer intelectual e estético, bem como certos efeitos emocionais. Por essa razão, eles não podem reproduzir a essência da realidade tal como ela é, senão que devem isolar partes da mesma, suprimir associações perturbadoras, reduzir o todo e completar o que falta. Esses são os privilégios do que se convencionou chamar ‘licença poética’. Além disso, eles podem demonstrar apenas ligeiro interesse pela origem e pelo desenvolvimento dos estados psíquicos que descrevem em sua forma completa.  Torna-se, pois, inevitável que a ciência deva, também, se preocupar com as mesmas matérias, cujo tratamento, pelos artistas, há milhares de anos, vem deleitando tanto a humanidade, muito embora seu trato seja mais tosco e proporcione menos prazer. Essas observações, esperamos, servirão para nos justificar, de modo amplo, o tratamento estritamente científico que damos ao campo do amor humano. A ciência, é, afinal, a renúncia mais completa ao princípio de prazer de que é capaz nossa atividade mental.

In:   UM TIPO ESPECIAL DE ESCOLHA DE OBJETO FEITA PELOS HOMENS(1910)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

FREUD E A CIÊNCIA.... FREUD ERROU?

O emprego da análise para o tratamento das neuroses é somente uma de suas aplicações; o futuro talvez demonstre que não é o mais importante.

In:  A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA (1926)

segunda-feira, 22 de julho de 2013

DITO SOBRE LACAN: MANEJANDO OS DISFARCES DO CIUME NA SESSÃO...


“Um dia fui obrigado a constatar (foi bem no começo de meu tratamento) que me era muito penoso pagar o que ele pedia. O que ele cobrava não era nem abusivo nem excessivo, mas, considerando meus recursos, era uma enormidade. Por isso, em geral, não ficava chateado quando ele saía de férias, pois ele só retornava no dia 15 de setembro! Eu começava, então, no dia 1º. de setembro, a trabalhar para ter como lhe parar. Ora, num ano, ele voltou no dia 1º. de setembro, embora tivesse me dito que retornaria no dia 15, e fiquei sabendo por vários companheiros de jogo, com quem dividia a mesma sala de espera, que ele tinha voltado no dia 1º. e tinha ligado para alguns pacientes seus, mas... não para mim! Não posso nem falar do ciúme que se apossou de mim – sem motivo, evidentemente; eu então segurei as pontas até encontrar uma de minhas colegas na sala de espera, logo antes da minha sessão, que me expressou seu júbilo, pois Lacan tinha lhe telefonado já no dia 1º. de setembro! Diante disso não dava para escapar! Mal deitei, disse-lhe: ‘Veja o que acabei de saber e, digo-lhe com todas as letras, estou extremamente enciumado!” Ao que ele respondeu: “O senhor está enciumado? Bem, nesse caso, o senhor me pagará todas as sessões que deveria ter feito se eu tivesse lhe telefonado no dia 1º.’”

 

In: WINTER, J. P. “Tiradas” de Lacan? In: DIDIER-WEILL, A.; SAFOUAN, M. (orgs.) Trabalhando com Lacan: na análise, na supervisão, nos seminários. Rio de Janeiro, Zahar, 2009. p. 134-143.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

DITO SOBRE LACAN: PENSE, ANALISTA... PENSE!


"Assim, ao convidar os analistas a ousarem autorizar-se a pensar, Lacan não esquecia a inquietude expressa por Freud quando via analistas que, ao se tornarem “obedientes a prescrições tabus”, eram forçados a esquecer o espírito criador com que, no entanto, tinham tido que conviver na experiência de analisando."
 
In: DIDIER – WEILL, A.  Introdução. In: DIDIER-WEILL, A.; WEISS E.; GRAVAS, F. (orgs.). Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

FREUD E A CIÊNCIA... AS VERDADES QUE A PSICANÁLISE RE(DES)VELA

"Disse-lhes que a psicanálise começou como um método de tratamento; mas não quis recomendá-lo ao interesse dos senhores como método de tratamento e sim por causa das verdades que ela contém, por causa das informações que nos dá a respeito daquilo que mais interessa aos seres humanos – sua própria natureza – e por causa das conexões que ela desvenda entre as mais diversas atividades."

In:   NOVAS CONF. INT. SOBRE PSICANÁLISE (1933) [34 e 35) EXPLIC...

terça-feira, 2 de julho de 2013

DITO SOBRE LACAN...LACAN E SEU MEDO?


“Fora isso, eu não gostaria de fazer de Jacques Lacan um retrato idealizado. Seus defeitos eram manifestos. Ele adorava levar as pessoas para ali onde se deposita o eu [moi], a armadura social, o mais próximo do natural, e depois, de um golpe, quando confiavam nele, colocar-lhes uma casca de banana sob os pés, desconcertá-las. Não penso que fizesse isso “de propósito”. Não, era antes a angústia dele: os laços próximos demais davam-lhe medo e se, depois, eram rompidos, ele não suportava mais. Na verdade, para tornar possível uma relação durável com ele, era preciso ficar vigilante e representar, de maneira discreta, mas sempre, a comédia.”
In: MONTRELAY, M.  Entrevista com Michèle Montrelay: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.
 

domingo, 30 de junho de 2013

FREUD ESCRITOR.....FREUD, O HOMEM DAS VINTE MIL CARTAS (OU MAIS?)

"Como escritor de cartas meu pai era extraordinariamente prolífico e consciencioso, ocupando-se sozinho de sua volumosa correspondência e escrevendo a mão. Respondia a todas as cartas que recebia, fossem de quem fossem, e em geral sua resposta estava no correio em 24 horas. Dedicava suas noites aos escritos científicos, mas cada minuto livre entre as análises era consagrado à correspondência. A estrita observância dessa rotina durante toda sua longa vida teve como resultado alguns milhares de cartas.'

Ernest Freud, filho que compilou um livro com as cartas de amor de Freud, cartas que, nunca se saberá ao certo, pode ter ultrapassado o número de vinte mil!

In:  FREUD, S.  Correspondência de amor e outras cartas: 1873-1939. Tradução de Agenor Soares Santos. Edição preparada por Ernst L. Freud. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. 529 p.

 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

FREUD E A CIÊNCIA... SOBRE O MEDO, AS DÚVIDAS E O DESCONHECIDO....

"O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores; mas apesar de tudo isto, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz."

In.:  INIBIÇÃO, SINTOMA E ANSIEDADE (1926[1925])

quinta-feira, 27 de junho de 2013

EVENTO APRESENTAÇÃO DE TRABALHO NO CAFE CARTEL DO FCL-SP

Neste sábado apresentarei um trabalho na sede do Forum do Campo Lacaniano-SP, durante o Café Cartel 2013, intitulado: MAIS UM: ELEIÇÃO, ESCOLHA, IMPOSIÇÃO OU PURA FALTA DE OPÇÃO?
Quem tiver interesse, ligue para 3063-3703 e garanta a vaga....

DITO SOBRE LACAN... UM SUPERVISOR QUE FORMAVA ANALISTAS


“Basta ter feito uma supervisão prolongada com Lacan para ter uma idéia de sua concepção da formação ou da transmissão psicanalítica em geral. Ao contrário de seus outros colegas (e fiz supervisões com muitos deles), Lacan não procurava ensinar como conduzir uma analise. Deixava você agir o melhor que podia, o que significa que ele deixava a seu cargo o cuidado de se informar se você estava suficientemente preparado, ou se o acúmulo da contratransferência, das intervenções extra-analiticas – tais como as supostamente destinadas a atenuar a culpa, sem falar do mal-estar interno e no fato de falar mais de si próprio que do seu paciente etc. – levava você a concluir que era o caso de retomar sua análise. Numa palavra, para Lacan, “formar um analista” era, acima de tudo, dar todas as oportunidades para que algo da ordem do analista se realizasse. Ou, para dizer de outra forma, para que algo se atenuasse das certezas que o eu tira de sua fantasia fundamental.”
In: SAFOUAN, M.  Entrevista com Moustapha Safouan: testemunho. [1993-1994]. Quartier Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. Entrevista concedida a Alain Didier-Weill, Emil Weiss e Florence Gravas.
 

terça-feira, 25 de junho de 2013

DITO SOBRE LACAN... UM TRABALHADOR DECIDIDO, NÃO SUBMETIDO!


"Por trás da porta, na verdade havia apenas um pequeno recinto que servia de secretaria a Glória. Foi nesse espaço confinado e sombrio que a fiel pessoa passou tantos anos da vida a datilografar seus textos, a atender e a filtrar as chamadas, a fumar também sem parar. Ao lado dessa passagem de dois ou três metros, ficava o quarto de dormir de Lacan, quase que inteiramente ocupado por uma cama grande, uma verdadeira cela de monge.
'Ele às vezes trabalhava aí até as três horas da manhã. Mais de uma vez, encontrei-o adormecido no meio das folhas de papel sobre as quais tinha trabalhado...'."

In HADDAD, G.  O dia em que Lacan me adotou: minha análise com Lacan. Tradução de Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003. 303 p.


 

CARTAS DE FREUD... GOSTARIA DE TE PEGAR POR TRÁS E CAGAR NA SUA CABEÇA...

CARTA DE FREUD ENDEREÇADA A FERENCZI EM 13/03/1910

“No geral, não sou nada mais do que uma máquina de fazer dinheiro que se esgota de tanto trabalhar nas últimas semanas. Um jovem russo rico que eu havia aceitado tratar por causa de uma paixão amorosa compulsiva declarou a mim depois da primeira sessão o seguinte, à guisa de transferência: ‘- Judeu ladrão, gostaria de te pegar por trás e cagar na tua cabeça’. Com seis anos de idade, o primeiro sintoma manifestou-se em xingamentos blasfemos contra Deus: porco, cão, etc. Quando ele via na rua três montes de estrume, sentia-se mal por causa da Santa Trindade, e procurava ansiosamente um quarto, para destruir a evocação.”

sexta-feira, 14 de junho de 2013

FREUD IMPLICA: PEQUENO HANS E O CIÚME... SOBRE A ORIGEM DESSA PAIXÃO


“Não há dificuldades na maneira para compreendermos essas duas fantasias criminosas. Elas pertenciam ao complexo de Hans de tomar posse da sua mãe. Agitava-se em sua mente algum tipo de vaga noção de que havia algo que ele poderia fazer com sua mãe por meio do que ele chegaria a tomar posse dela; para esse pensamento ilusório ele encontrou algumas representações pictóricas, que tinham em comum as qualidades de serem violentas e proibidas, e cujo conteúdo nos choca por combinar maravilhosamente com a verdade escondida. Só podemos dizer que havia fantasias simbólicas de relações sexuais, e não era um detalhe irrelevante o fato de que seu pai era representado como compartilhando das suas ações: `Eu gostaria’, ele parecia estar dizendo, `de estar fazendo algo com minha mãe, algo proibido; eu não sei o que é, mas sei que você está fazendo isso também.’ A fantasia da girafa fortaleceu a convicção que já tinha começado a se formar na minha mente, quando Hans expressou seu medo de que `o cavalo entrasse no quarto’; e achei que então tinha chegado o momento certo para informá-lo de que ele tinha medo do seu pai porque ele mesmo nutria desejos ciumentos e hostis contra este – pois era essencial postular-se bem isso com relação aos seus impulsos inconscientes. Ao lhe dizer isso, eu tinha interpretado parcialmente o seu medo de cavalos para ele: o cavalo tem que ser seu pai – a quem ele tinha boas razões internas para temer. Certos detalhes dos quais Hans mostrou que tinha medo, o preto nas bocas dos cavalos e as coisas na frente dos seus olhos (os bigodes e os óculos que são o privilégio de um homem crescido), me pareciam ter sido diretamente transpostos do seu pai para os cavalos...”

 

In:   ANÁLISE DE UMA FOBIA EM UM MENINO DE CINCO ANOS (1909)